A motivação é um motor interno que possuímos, movido a uma espécie do combustível mental que nos cria uma espetativa futura e que nos coloca agora em andamento. Uma causa futura para viver o agora em consequência do passado.

O motivo está lá à frente completamente fora do nosso controle, dessa forma só podemos acreditar que trabalhando afincadamente essa espetativa se materializa, desconhecendo muitas vezes que a materialização depende muito mais do empenho que colocamos em cada momento do que do sonho idealizado.

Nesse foco futuro idealizado também pode residir a desilusão, a linha que os separa é muito ténue, dependendo apenas da energia que colocamos em todos os momentos presentes que precedem a sua concretização. Aquilo que nos motiva não pode ser o mesmo que eventualmente nos pode trazer a desmotivação. Quando o nosso motivo por exemplo, são as pessoas, corremos o risco de elas nos desiludirem porque ficamos dependentes delas, dependentes de um fator que nos é externo e sobre o qual não temos qualquer controle. Quando a nossa expetativa está num grupo, numa ideologia ou filosofia, a desilusão acontece por deixarmos de nos identificar com essa ideia, normalmente porque mudamos a nossa perspetiva. Quando a nossa motivação é um público, possivelmente será esse público que também nos irá desiludir, vemos muito isso na política, no futebol e no meio artístico. Nem sempre tem de haver um evento que provoque essa desilusão, basta o nosso foco de motivação começar a ignorar-nos, basta passarmos de moda, basta deixar-mos de cumprir com as espetativas desse fator externo. Quando a nossa motivação é apenas a família ou os filhos, possivelmente será daí que surgirão as grandes desilusões. Desilusões que derivam das elevadas expetativas que aí colocamos.

Só nos desiludimos é porque à partida não aceitamos o facto da balança pender para o outro lado, acreditando que terá de ser como nós queremos que seja. O romper dessa expetativa é a desilusão que pode arrastar consigo outros sentimentos como a frustração, raiva, indignação, etc.

A enorme vantagem do nosso foco de motivação não estar ligado aos fatores de desmotivação, é que a desilusão nunca acontece.  Se um pintor pinta para satisfazer os gostos dos outros, colherá mais tarde ou mais cedo a frustração e a desilusão, mas se pelo contrário aprender a procurar dentro de si a motivação, sendo original, acreditando no seu estilo, o público pouco importará para que ele continue a pintar. A grande luta será interna, a desilusão a existir, será consigo mesmo, mas será uma desilusão que se converte em constantes desafios de superação e de busca de algo que está dentro de si.

A história está cheia de personalidades e de casos geniais, onde inicialmente a originalidade é rejeitada, onde as ideias inovadoras são contestadas e só a persistência da vontade interna dessas pessoas rompeu com o estabelecido fazendo a humanidade avançar. O Mundo avança, a energia do Universo eleva-se sempre que alguém encontra o seu fator de motivação dentro de si, porque é daí que brota a originalidade. A adaptação ao que existe é repetir, é negar a individualidade, é procurar fora o nutrimento que carrega consigo a real possibilidade da desilusão.

Quando abraçamos uma causa social, o nosso foco, a nossa motivação última, são as pessoas. Queremos que o resultado do nosso empenho se traduza no bem estar dessas pessoas, ou melhor ou pior, isso quase sempre se consegue, ou seja, as pessoas acabam sempre por colher esses benefícios. Então porque é que a desilusão por vezes acontece? Porque é que desistimos desse propósito depois de nos sacrificarmos tanto por ele? Desistimos porque a desilusão é algo interno, porque sentimos que nos tornamos vítimas do nosso altruísmo não obtendo o reconhecimento que procurávamos e porque constatamos que a vida não nos traz mais facilidades pela nossa filantropia. Como interiormente não sentimos o benefício, surge a desilusão associada ao fator externo. A nossa necessidade de ajudar logicamente é despoletada por quem precisa de ajuda, mas a nossa motivação tem que vir de outra fonte, temos de criar distanciamento de quem ajudamos, ao fazer isso deixamos de estar dependentes, não deixamos que sejam as pessoas a desmotivar-nos. Primeiro temos de fazer por nós, a razão do nosso altruísmo tem de partir de algo muito nosso, algo muito íntimo para criar imunidade externa e com isso trazermos a capacidade de acreditar e ser persistentes. Quando se ajuda apenas por ajudar, sem um motivo mais elevado, apenas se busca nesse ato o nutrimento e reconhecimento pessoal, onde o fator motivação aparece completamente distorcido. Ter essa perceção não é fácil, uma vez que a necessidade de ajudar, surge como fator de compensação emocional e não como algo genuíno e desinteressado. É preciso algum trabalho interior para se adquirir essa capacidade.

 

Neste poema “Pedra Filosofal” de António Gedeão, do qual extraímos este trecho final, encontramos a unicidade divina das leis do Universo, a forma como tudo acontece e se materializa. Tudo começa no sonho e na motivação, mas as coisas só se materializam através da capacidade que cada ser humano traz consigo de ser autêntico, de ser original e de se conectar com o seu próprio sonho. Só sonhar não basta, essa é a parte mais fácil de todo o processo, porque sem conexão o ciclo não se fecha, a obra não se concretiza.

Aquilo que te motiva não pode ser o mesmo que te traz desmotivação. Quanto te desmotivam só te afetam se o teu mote e o teu foco, estiver aí. Por isso deves encontrar um motivo maior, muito para lá dos elementos desmotivadores, que podem ser externos ou elementos internos que inconscientemente se manifestam sempre que são ativados. Rodeia o teu sonho de elementos motivadores que nasçam em ti e que em ti continuem crescendo. Essa é a certeza que poderás ter da real possibilidade do teu sonho se materializar.

Carlos Dionísio

03/07/2020